Era uma vez…

A reunião, a decisão e a preparação da chegada – Episódio 10

Chegou, então, a tal Terça-Feira e, ainda sobre este dia, é importante dizer que este é o momento certo e derradeiro para a nossa tomada de decisão. Enquanto isto se passa, a criança ainda não sabe que está envolvida neste processo. A criança é envolvida apenas depois de as pessoas candidatas dizerem “Sim”. Neste dia é apresentada a história da criança e o que a levou até àquela situação e qual a situação física, psíquica e emocional da criança naquela data. Ou seja, toda a informação que os serviços dispõem é passada, o que não quer dizer que lá conste rigorosamente tudo o que aconteceu. Nesta fase – e isso foi reforçado pelas técnicas no próprio dia – é perfeitamente legítimo dizer que não estamos preparados para lidar com a situação que nos é apresentada. Não há nenhum prejuízo para a candidatura, ninguém é penalizado por dizer que não. E este é o momento porque a criança ainda não criou expetativas sobre a sua nova família. Em consciência, é preferível não avançar do que avançar de forma insegura porque, no limite, o interesse da criança está acima de tudo. Temos que ser firmes nesta tomada de decisão. No dia seguinte liguei de volta a informar que iríamos avançar. Começou uma verdadeira odisseia: saber o número de roupa e calçado, aferir gostos e preferências, com o que brinca, do que gosta. Tudo para que seja perfeito, tudo para receber o meu filho de braços abertas à nova vida que se iniciava. Ao longo de três semanas, andei com a minha irmã a comprar e mobilar um quarto, a decorar com aquilo que ele mais gostava. Fui com a minha mãe comprar roupa. Enfim…. um verdadeiro enxoval. E a alegria, a par com a ansiedade, aos pulos. Uns dias antes do primeiro encontro, é feita uma reunião com as técnicas da casa de acolhimento, as técnicas da adoção da cidade onde a criança está e as técnicas que irão acompanhar a integração. Nessa reunião temos que entregar um album de família, com os elementos todos, fotografias da casa (em particular do quarto da criança). Tudo foi preparado ao pormenor. E com a família toda a envolver-se de alma e coração ao longo daquelas três semanas. Que alegria voltar a reviver isto tudo, agora enquanto escrevo. Para além do album, eu decidi criar uma história. A nossa história. A história da nossa família. Também gravei alguns vídeos que lhe mostraram logo nesse dia. No dia seguinte, disseram-me que a reação foi ótima. “Vitória, vitória, começa aqui a nossa história”. Assim terminava a história que escrevi. E assim começava a maior aventura da minha vida. Estava tudo pronto. E o coração a explodir. O primeiro abraço seria dali a cinco dias.

O telefone tocou. Vou ser pai – Episódio 9

Como vos disse, a situação em que estava quando voltaram a ligar-me, foi caricata. Pois bem, é isso que vos conto hoje. Houve uma quarta-feira em que liguei para as técnicas a dizer que tinha um “feeling” que devia resolver-se nessa semana. Do outro lado, a técnica disse-me que nessa semana não seria possível porque só na segunda-feira seguinte haveria reunião do CNA (Conselho Nacional para a Adoção). Restava, então, esperar e seguir a minha vida normal. Na sexta-feira dessa semana o telefone tocou. E eu não estava à espera. E aqui começa a “comédia” da situação. Estava eu, tranquilamente, a comprar verniz para passar num móvel antigo quando, de repente, o telefone tocou. Era o número da SCML. E eu gelei. Atendi e a única coisa que consegui dizer, foi: “Ai”. Do outro lado, a resposta: “Ai o quê? Não quer falar comigo?”. Claro que queria mas não estava à espera daquele momento, naquele dia. Do outro lado, ouvi: “É para lhe dizer que parece que o seu “feeeling” estava certo. Houve um CNA extraordinário, a sua candidatura foi discutida e o Gonçalo foi a família escolhida para esta criança”. GELEI DA CABEÇA AOS PÉS. No meio de uma loja de tintas, com um senhor a perguntar-me se queria “mate ou brilhante”, sem perceber nada do que estava a passar-se. Eu só conseguia chorar compulsivamente. Zero de raciocínio. Mas a situação mais engraçada, foi: Sabem quando, no festival da canção, qualquer votação altera por completa toda a organização do ranking? Foi o que senti. De repente, em segundos, toda a lista de prioridades da minha vida reorganizou-se. TUDO mudou. Para melhor. Liguei à minha mãe, à minha irmã, a uma ou outra pessoa mais próxima. Só conseguia chorar, enquanto contava a novidade. Tentei ir, de imediato, à Santa Casa, mas não era possível. Marcámos reunião para a Terça-feira seguinte. Deixei de dormir, passei a querer que o mundo e o tempo parassem. Aguentei. Na Terça-feira, fui à reunião e prometi que no dia seguinte daria uma resposta, mas podiam considerar um sim. Assim foi. No dia seguinte liguei e começou a desenrolar-se o processo necessário para a integração. Conto-vos toda esta parte, já na próximo episódio. P.S. – Até hoje não faço ideia se comprei mate ou brilhante. Mais… nem sei onde foi parar essa lata de verniz ahahahah

Junho – o mês do orgulho LGBTQIA+

A marcha do orguho LGBTQIA+ é, frequentemente, um tema. Quer para quem não conhece a sua origem, quer para quem nunca foi e não sabe bem do que se trata e tem curiosidade ou ainda como “um alvo a abater”, na boca de quem considera que os direitos de pessoas LGBTQIA+ já estão assegurados e que, por isso,/ se torna inútil a realização da marcha. Quanto à sua origem e motivo, este artigo do site “Lisboa Secreta” é bastante esclarecedor e vale a pena ser lido. Link: https://lisboasecreta.co/junho-mes-orgulho-lgbt/ Para além dessa explicação há que dizer, também, que a palavra orgulho tem, como sabemos, diversos significados dependendo do contexto em que é aplicada. E aqui não é exceção. A palavra “orgulho” é usada em contraposição à palavra “vergonha”, porque foi isso que sentiram e é isso que sentem milhões de pessoas LGBTQIA+ um pouco por todo o mundo. E é errado pensar-se que em Portugal isso não acontece. Estamos bastante melhor do que há vinte anos? Sem dúvida. Portugal foi dos países que mais evoluiu, em termos legislativos, nesta matéria, nas ultimas décadas. Mas quer isso dizer que está tudo feito e que todas as pessoas em Portugal, pertencentes a esta comunidade, se sentem seguros? A discriminação acabou? A resposta é, claramente, não. Deixo-vos, apenas, um pequeno exemplo: https://sicmulher.pt/-mulher/2021-06-16-Sejam-o-que-quiserem-mas-dentro-da-vossa-casa.-Casal-homossexual-responde-a-letra-a-comentario-de-internauta-2c741620 E é esta a razão, pela qual, continuamos a marchar. O lema é: visibilidade. Tal como a notícia refere, há muitas pessoas que acham que o direito à existência e livre expressão de afetos, por parte de pessoas LGBTQIA+ deve estar restrito a casa, a quatro paredes. O mesmo é dizer que continuam a tentar vetar-nos à invisibilidade, ao silêncio, à inexistência. Somos pessoas. Queremos existir, orgulhosamente. Livremente. No mesmo mês do orgulho, a Húngria acaba de anunciar um pacote legislativo profundamente LGBTfóbico, naquilo que chamaram de proibição da “promoção” da homossexualidade e transexualidade em espaços públicos. Não, não está tudo bem. Está melhor, sim, em Portugal. Mas não o está em muitos países do mundo e, mesmo por cá, ainda há muito por fazer e para fazer. Continuam a existir adolescentes e jovens adultos abandonados pelas famílias quando se assumem. Continuam a existir crianças que são violentadas pelas suas próprias famílias (pais e mães incluídos) pela sua orientação sexual ou identidade de género. Sim, há adolescentes em casas de acolhimento por estes motivos. Há países onde ser LGBTQIA+ é crime e, em alguns deles, punível com a pena de morte. Ao longo da história houve muitas pessoas que lutaram afincadamente pela dignificação da sua existência, mesmo sabendo que pouco ou nada conseguiriam durante a sua existência e, ainda assim, fizeram-no para e pelas gerações seguintes. Sofreram ataques – físicos, psicológicos e emocionais – brutais. Sofreram o inexplicável. Muitas acabaram por “tombar”. Pelo suicídio, pela violência, pelo abandono. Também pela honra das suas memórias, amanhã marcharei. E erguerei, sempre, a minha voz e a minha bandeira para que a minha e tantas outras famílias sejam, finalmente, vistas como tal. Porque o que faz uma família é sempre, e só, o amor. A marcha do orgulho realiza-se este sábado, dia 19 de Junho, em Lisboa e todas as pessoas estão convidadas a juntar-se a nós. A marcha está autorizada pela DGS e todas as normas serão cumpridas. Direitos de pessoas LGBTQIA+ são direitos humanos.

À espera que o telefone volte a tocar – Episódio 8

Se até àquela primeira chamada, eu achava que tinha passado por alguns momentos de grande ansiedade, agora a ansiedade tinha ganho todo um novo significado, no meu vocabulário. Agora, eu já sabia que havia a possibilidade real de acontecer dentro de muito pouco tempo. Mas também podia não acontecer rigorosamente nada, porque podia não ser a minha candidatura a ser escolhida. Eu não fazia a menor ideia de quantas candidaturas estavam a responder àquela criança. Se eram muitas ou poucas, mais antigas ou mais recentes. Nada, rigorosamente nada. E ao longo deste tempo de espera, depois do primeiro telefonema, em Agosto, passei por diversas fases. Se, por um lado, a ansiedade era inexplicavel, por outro, acabei por aproveitar esse tempo para ir organizando a minha vida para a possibilidade dessa (tão esperada) chegada da criança. E esse foi o lado bom. Mas claro que, na altura, eu não queria ter tempo para organizar coisa nenhuma. Acho que isso acabou por surgir naturalmente, mas o que eu queria mesmo era que me dissessem: SIM, foi a candidatura escolhida. E depois, porque ainda demorou algum tempo, as emoções foram oscilando. Primeiro o que eu queria era que me ligassem rapidamente, a dizer que era eu. Mas chegou a uma altura em que eu já só queria uma resposta e nem era tanto por mim, mas sim pela criança. Claro que eu nunca deixei de querer ser selecionado, mas a dada altura eu só queria que houvesse uma resposta, para ter a certeza que aquela criança seria integrada, rapidamente, numa família. Na sua nova família. Ao longo destes três meses, que durou esta situação, mantive um estreito contacto (ainda mais estreito, na verdade), com as técnicas que acompanhavam o meu processo. Às vezes ligava só para desabafar, só para partilhar a minha angústia. E contei sempre, sempre, com um apoio incrível da sua parte. Mais do que apoio, chegou a ser colo, mesmo. Várias vezes, ao longo de todo o processo me ocorreram questões como: “Como será a criança?”, “Será que dormiu bem?”, “Como estará vestida?” entre tantas, tantas outras. Eu tinha uma noção muito presente da existência daquela criança. Nesta fase isso ganhou uma dimensão gigantesca e houve alturas em que chegou a ser, mesmo, sufocante. Momentos de brutal angústia, noites e noites a sonhar com tudo isto. Cheguei a sonhar que tinha sido escolhido mas depois me tinham dito que era um erro e que não seria eu. Enfim, todos os medos e inseguranças a revelarem-se, de forma muito acentuada. E este é um exemplo que, mesmo quando tudo corre muito bem, isto não é um mar de rosas. Até porque a parentalidade (seja ela de que forma for), nunca é um mar de rosas. Todas as pessoas à minha volta sabiam que eu estava em processo de adoção. Mas muito poucas souberam desta fase, apenas a família mais chegada e um amigo muito próximo. E quando todas as outras pessoas me perguntavam pelo processo, eu ficava de coração ainda mais apertado e dizia, simplesmente: “nada de novo, ainda à espera”. Um dia a espera terminou. Um dia o telefone voltou a tocar. Um dia eu soube o nome do meu filho. E soube que já era seu pai, só não o conhecia, ainda. E esse momento foi um dos momentos mais bonitos e especiais (e mais caricatos e inesperados) da minha vida.

Dia mundial das crianças – O que falta fazer?

Hoje celebra-se em Portugal, e noutros países, o dia das crianças. Este dia, pretende assinalar e celebrar a Declaração dos direitos das crianças, proclamada pela ONU a 20 de Novembro de 1959. Na verdade, faltam cumprir, um pouco por todo o mundo, muitos dos direitos que ali se consideram inalienáveis. Há crianças em situação de guerra, de conflito armado, de fome, de negligência, de alienação parental entre tantas outras agressões pelas quais nenhuma criança devia passar. Claro que aquilo que aqui descrevo retrata situações limite, de risco de vida ou de sérias ameaças à saúde mental, inflingidas por situações ou por pessoas adultas que deveriam proteger as crianças. Mas não falo apenas disso. Há mais, muito mais, que podemos e devemos fazer para proteger e educar uma criança. Na semana passada, assistimos a violentas imagens de uma criança/adolescente, de doze anos a ser brutalmente atropelado, quando tentava fugir da agressão e da humilhação que lhe era inflingida. Pelos seus pares. Sim, é verdade que o bullying está vivo e de boa saúde e não, não é uma moda. Não, não são brincadeiras parvas e inconsequentes. É violência, manifestada das mais variadas formas e, garanto-vos, por experiência própria: deixa marcas para toda a vida. Seca-nos por dentro, queima-nos a fé, a esperança e o sorriso. Quebra-nos nas nossas mais íntimas emoções e faz-nos duvidar – às vezes para sempre – de nós própri@s. Depois das imagens terríveis a que assistimos, no Seixal, ouvimos a mãe de uma das crianças agressoras (a que, nas imagens, tomava a iniciativa da agressão), numa entrevista a um canal de televisão a dizer coisas como: “foi uma brincadeira que acabou mal”, “parem de denegrir a imagem da minha filha”, “ela é muito boa menina”, “falem com quem quiserem, até com a diretora de turma que dirá que ela é muito boa aluna”, “ela não tem culpa de ser grande”, “o menino é chatinho, é muito pica miolo”, entre outras questões. Não pretendo, de forma alguma, fazer juízos de valor sobre esta mãe, esta criança/adolescente ou sobre esta família. É inegável o efeito de grupo, é evidente que as crianças não se comportam sempre da mesma forma e que na escola ou em ambiente social com os pares, fazem coisas muito diferentes daquelas que fazem à frente das famílias, é evidente que ninguém quer  – e não pode acontecer – que esta menina seja julgada e linchada em praça pública.  Primeiro porque também é, ela própria, uma criança. E depois porque alguém que é tão permeável ao efeito de grupo e que agride desta forma precisa de ajuda e orientação porque também estará, provavelmente, em grande sofrimento. E nada disto é sobre esta menina. Mas também é inegável que qualquer tentativa de justificação, por parte d@s adult@s, de uma situação que podia ter levado à morte de um menino de doze anos, é a desvalorização do profundo sofrimento em que aquele miúdo estava e o branqueamento de uma agressão brutal. O bullying não é uma brincadeira. A violência não é uma brincadeira. A agressão (seja ela qual for), não é uma brincadeira. Ponto. É violência, é bullying, é agressão. E não pode ser desvalorizada, de forma alguma. Aqui chegados – e esta é a reflexão que pretendo fazer – temos que parar e pensar o que nós, adultos, cuidadores, pais e mães estamos a fazer e podemos fazer para evitar que isto aconteça e erradicar a violência nestas crianças que um dia serão adult@s. Os comportamentos não se herdam. Mas adquirem-se. E adquirem-se pelo exemplo, para o bem e para o mal. Não me passa pela cabeça que haja cuidadores (salvo raras exceções, espero eu), que incentivem @s filh@s a serem agressor@s. Não acredito que, de forma geral, alguém incite um@ filh@ à violência gratuita. Mas como diz a “Mafaldinha”, ensinar é dizer. Educar é dar o exemplo. E é aqui que podemos e devemos fazer a diferença. Pensemos, sempre: A que é que a criança assiste quando eu me irrito no trânsito? Como é que a criança me vê a tratar as outras pessoas? Como me refiro às pessoas que são diferentes de mim (na orientação sexual, no género, na etnia, etc)? A que assiste a criança em casa? Que tipo de agressões presenciou? Como se tratam as pessoas, na família em que está inserida? Que tipo de vocabulário é usado à frente da criança? As redes sociais, as caixas de comentários das notícias estão pejadas de ódio: racial, homofóbico, machista, entre tantos, tantos outros temas. Muitas destas pessoas, provavelmente têm filhos. E se destilam este ódio na internet então fica, legitimamente, a pergunta: o que passam às crianças que estão a educar? A cada momento, em todos os momentos, cada ação nossa é um exemplo, um ensinamento para as nossas crianças. Podemos fazer tudo isto, com cuidado e respeito e, ainda assim, sermos surpreendidos e confrontados com comportamentos violentos? Podemos, sim. Mas a probabilidade é substancialmente menor. E não podemos, de forma alguma, depositar na vítima da agressão nenhum tipo de responsabilidade. Há formas de nos afastarmos, há maneira de não conviver. O menino é chato? Então vamos encontrar formas de criar um afastamento, de resolver esse problema. Mas nunca, nunca, pela via da violência. Claro que é difícil, especialmente na adolescência, entrar no mundo del@s. Mas não podemos baixar a guarda e – uma vez mais – a comunicação é fundamental. E para isso é preciso tempo, é preciso dedicação, é preciso estar alerta. E aqui, é também importante que a articulação com a escola seja muito próxima, muito estreita. Já aqui comentei que temos essa sorte, no caso do Duda. Se a professora o sente mais ansioso ou mais agressivo, liga de imediato. Se o sentimos triste ou frustrado, ligamos nós. E isto tem que acontecer. Diariamente. Só assim construiremos uma sociedade mais tolerante, mais aberta, mais inclusiva. Sim, tod@s nós podemos ajudar a que a declaração universal dos direitos das crianças seja cumprida. Todos os dias. Em todos os momentos. Façamos mais. E melhor. Por el@s, por nós, pelo mundo. Feliz dia das crianças.

O telefone toca pela primeira vez. Ai que nervos… – Episódio 7

É verdade, o telefone tocou. E a história de como tudo aconteceu é, quanto a mim, mágica. Em Agosto de 2018, estava eu no meu paraíso, o local onde passo férias e que adoro e senti a necessidade de me manifestar sobre esta espera pela criança. Na altura não havia nenhuma previsão, nem sabia se seria uma ou duas crianças. E escrevi um post no meu instagram pessoal, onde fazia referência ao facto de me sentir pronto para esta tão ansiada chegada. Podem ler esse post, aqui. O pano de fundo da minha inspiração, era a imagem que aqui partilho convosco. Depois de o escrever fui para a praia. Era um desabafo e estava feito. Mais ou menos duas horas depois, fui ao bar tomar um café sozinho. Enquanto lá estava, tocou o telemóvel. Não reconheci o número. Atendi. Era da Santa Casa. Do outro lado aquela voz tão familiar… “Gonçalo, pode falar um pouco agora?” Tremi da cabeça aos pés, não sabia o que fazer. Se me levantava, se andava pela praia, se bebia o café. Explicaram-me, então, que não era comum fazerem isto, mas dada a minha insistência para que, na dúvida, falassem comigo, decidiram fazê-lo. Não era ainda o telefonema em que nos dizem “foi a família escolhida”. Então era o quê? Com este telefonema pretendiam perceber se eu estava disponível para um conjunto de situações concretas, daquela criança em particular e se, para mim, faria sentido que a minha candidatura fosse enviada ao CNA como resposta para esta criança. Pedi que me fosse enviada a informação disponível sobre a situação relatada para que eu pudesse discutir em família e também com profissionais que pudessem dar-me uma opinião credível. Escusado será dizer que o que se seguiu foi um misto de emoções entre o querer dizer que sim e a racionalidade de saber que precisava de ajuda para tomar esta decisão. O resto da família chegou à praia, entretanto, e o tema dominante foi, claro, este telefonema. Sabem aquela metáfora do anjinho num ombro e do diabinho no outro com opiniões opostas. Acho que estávamos tod@s, mais ou menos, a sentir isso. Havia uma vontade de festejar mas, em bom rigor, não havia nada para festejar ainda. Primeiro porque eu ainda não tinha a minha decisão tomada e depois porque, mesmo que eu dissesse que sim, o CNA podia – legitimamente – entender que havia outra candidatura mais qualificada para aquela criança. Passaram cerca de 24 horas e eu devolvi a chamada. Disse que sim, que podiam avançar. Lembram-se da “Boca seca, pernas a tremer, ansiedade “aos gritos””? Ganhou todo um novo significado e toda uma nova dimensão, na minha vida, a partir daquele dia. Agora eu sabia que podia estar para acontecer muito brevemente. Mas também sabia que podia não acontecer nada. Como se gere tudo isto? É o que vos contarei, já no próximo episódio.

Como acontece o “match” – Episódio 6

Uma das coisas a que dediquei tempo foi a estudar como o processo funciona, para lá do que se vê e da intervenção que podemos ter, ou não, nas várias fases do processo, enquanto família candidata. Em primeiro lugar, é importante saber que se procuram famílias que estejam aptas a responder às necessidades das crianças e não crianças que cumpram as pretensões das pessoas/famílias candidatas. Claro que é aqui que entra o “match” sobre o qual já falei, mas é importante perceber que o processo é sempre, sempre a partir do superior interesse da criança (de resto, como não poderia deicar de ser). Quando é decretada a adotabilidade de uma criança, a equipa que acompanha o processo da criança, lança a peaquisa nacional pela família que melhor responde à situação, em concreto, tendo em conta fatores como capacidade e disponibilidade emocional, suporte familiar e, claro, a antiguidade da candidatura, entre outros. Cada centro distrital envia as candidaturas que julga adequadas e depois cabe à equipa original fazê-las chegar ao CNA (Conselho Nacional para a adoção). Aqui chegam, normlamente, três candidaturas. É esta entidade que seleciona a família que, fundamentadamente, melhor cumpre os requisitos necessários para que o processo corra bem. Só depois de tudo isto é que o telefone das pessoas candidatas toca. Até lá, as pessoas envolvidas nas candidaturas, não fazem ideia do que está a passar-se. Na verdade, é habitual que uma candidatura vá ao CNA várias vezes. Seria muito difícil para quem se candidata, ter que lidar com a ansiedade de todo este processo e geraria questões, legítimas mas eventualmente infundadas sobre a nossa capacidade para dar resposta a esta ou aquela criança ou situação. No fundo, esta situação protege todas as pessoas envolvidas. Crianças e adultas. Eu tive uma situação ligeiramente diferente. E, por isso, também um nível de ansiedade muito grande. No próximo episódio, conto-vos tudo sobre o dia em que o telefone tocou. E de como, a partir desse dia, tudo mudou.

Paulo Gustavo e a família que mudou (um pouco) o Brasil

Quando decidi criar o “Pai pra toda a obra”, fi-lo para falar de famílias, de parentalidade, de amor. Nas suas mais variadas formas e expressões. O facto de sermos uma família homoafetiva, cria uma proximidade inevitável de todas estas famílias e, muito em particular, daquelas que pela sua visibilidade, mudaram perspetivas e pontos de vista. No passado dia 4 de Maio – há pouco mais de uma semana – Paulo Gustavo morreu, devido a complicações motivadas pela COVID-19. E porque falo disso? Bom, para quem não o conhece, Paulo Gustavo alcançou o estrelato e o reconhecimento nacional e internacional, com uma personagem feminina em “A minha mãe é uma peça”. Começou por ser uma peça de teatro, virou um filme e depois outro filme. Neste texto, do qual é autor o próprio, Paulo interpretava a sua própria mãe, sob o nome de Dona Hermínia. Esta senhora, que representava a Dona Déa (mãe real do actor), era explosiva, “desbocada”, falava alto, dizia tudo o que tinha a dizer, educava de forma rígida e, às vezes, severa. Segundo a própria, a personagem era, realmente, a sua fiel representação. Mas esta mulher também aceitava e acolhia o seu filho homossexual. Também o protegia de qualquer ataque homofóbico, também lhe dava todo o colo do mundo, em todos os momentos. Com a peça e com o filme, Paulo Gustavo alcançou os melhores resultados de bilheteira de teatro e cinema, na história do Brasil. Seguiram-se inúmeras personagens de igual sucesso. Mas tem mais, muito mais, a provar que a família e o amor incondicional são sempre o pilar sólido de qualquer sociedade. Claro que o filho gay de Dona Hermínia, era o próprio Paulo Gustavo que sempre assumiu a sua orientação sexual. E quando alguém que tem este alcance o faz, isso torna-se um ato quase heróico e salvador de muitas pessoas que se sentem sufocadas dentro da sua orientação sexual, especiamente num país como o Brasil que continua a ser, infelizmente, um dos países com maior número de mortes por LGBTfobia (em particular no caso de pessoas trans em que os números são verdadeiramente alarmantes). Quando falamos de mortes por LGBTfobia, estamos a falar de pessoas que são perseguidas, torturadas, assassinadas, simplesmente por serem quem são. O mesmo é dizer que o são, simplesmente, por existirem. Uma das maiores ferramentas que existem, de forma comprovada, para acabar com este flagelo, é dar visibilidade a estas pessoas para que não se sintam sós. E foi exatamente isso que Paulo Gustavo deu ao Brasil e ao mundo. Quando uma pessoa com esta visibilidade assume a sua orientação sexual, há milhares (ou talvez milhões) de jovens que percebem que ser LGBTI+ não tem que ser, necessariamente, um impedimento para nada na vida. Ainda que Paulo Gustavo não se visse ou revisse enquanto ativista, a verdade é que ele foi das pessoas que mais fez no Brasil para a “normalização” das famílias homoafetivas. Ele casou com Thales Bretas, eles tiveram filhos pela via da gestação de substituição (vulgo barriga de aluguer – procedimento legal e reconhecido no estado da Califórnia, nos EUA). Há, claramente, um “antes e depois” de Paulo Gustavo, no Brasil. Não está tudo resolvido, continua muito por fazer. No Brasil e no mundo. Mas o caminho faz-se caminhando. Um exemplo claro da sua influência foi o fato de a imprensa se referr a Thales como marido de Paulo Gustavo. Nunca antes isto tinha acontecido. Até então, chamavam, em situações idênticas, de companheiro. Depois de serem pais e de se saber (assumido pelos próprios), quem era o filho de quem em termos biológico, a imprensa continuou a referir-se a Gael e Romeu como filhos de ambos. No dia 11 de Maio, na missa de 7º dia, realizada aos pés do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o marido discursou livremente. Para quem nunca teve de lidar com estas questões, talvez pareça pouco. Mas é nestes pequenos gestos que vamos evoluindo, vamos crescendo e, principalmente, vamos sendo integrados numa sociedade que, durante demasiado tempo, nos recusou a nossa existência. Para nós – e para o mundo – são marcos históricos. Não partiu apenas um artista brilhante. Um dos mais brilhantes da história, na verdade. O seu humor e a sua inteligência emocional e artística eram absolutamente brilhantes. Partiu também um homem que dedicou a sua vida e a sua arte ao combate ao racismo,  às desigualdades sociais, ao combate à LGBTfobia, à defesa de todas as famílias. Tudo, fazendo-nos rir. Muito. Termino, portanto, com uma das suas últimas frases, em vida: “Rir é um ato de resistência”. Obrigado, Paulo Gustavo.

Agora é só esperar – Episódio 6

Chegámos, finalmente, ao momento mais “temido” por quem se candidata a adoção: a espera. Até este momento, de alguma forma, eu sentia que havia qualquer coisa que eu podia fazer, de forma ativa, para o processo. As reuniões, as formações, a escolha das pretensões. Tudo isto criava, em mim, uma certa segurança de que tinha “a coisa controlada”, mas eis que chega a última sessão de formação e nos dizem a tal frase que não gostamos: agora vai para casa e aguarda. E lá voltamos. Lembram-se? Boca seca, pernas a tremer, ansiedade “aos gritos”. Agora é que são elas, pensei. Como é que eu vou gerir isto daqui para a frente? Qual o limite de tudo isto? Como se lida com a ansiedade da chegada do dia que mais desejamos na vida? Pior, sem ter a mais pequena noção de quando isso acontecerá. Há, nesta altura, uma tentação imensa de, de facto, suspender a vida e ficar quietinho só à espera que o telefone toque. De não entrar em aventuras, não mudar de emprego, não criar novos desafios, não viajar porque, a qualquer momento, o telefone há-de tocar. Se, por um lado, nos parece absurdo fazê-lo, por outro, a vontade é tanta que chega, mesmo, a ser tentador. E aqui, uma vez mais, uma palavra às técnicas que me acompanharam durante o estudo de candidatura e que sempre estiveram disponíveis para me ajudar a gerir tudo isto. É, então, mais do que necesário criar estratégias para não entrar numa espiral que nos pode levar a estados emocionais que não queremos e não precisamos nesta fase. Eu decidi que continuaria a fazer a minha vida normal, que não limitaria nada, até porque para mim era claro que havia um perigo real de isso gerar uma frustração em mim que poderia vir a refletir-se, mais à frente, na relação com a criança. Não devemos esquecer-nos que, antes de pais e mães, somos pessoas com sonhos e desejos e não devemos abdicar deles. A única coisa que eu fiz de diferente foi, sempre que viajava, comprava um seguro de viagem que cobrisse uma desistência minha à última hora (que nunca aconteceu). Foram muitos os contactos que fiz com as técnicas, foram muitas as conversas que tive com elas e com as pessoas próximas de mim, foram muitas as vezes que respondi: “ainda não sei de nada, estou à espera”. Durante todo este período pensava muitas vezes, sozinho, à noite: o que estará a fazer @ meu/minha filh@? O que terá vestido? Será que jantou? Durante este período, cheguei a sentir uma espécie de “saudades de um futuro por concretizar”. Mais uma vez, a minha família foi um suporte gigante e a coisa levou-se de forma, mais ou menos, tranquila. Até que chegou o dia em que o telefone, finalmente tocou. E o momento foi maravilhoso. Mas isso, conto-vos no próximo episódio. NOTA IMPORTANTE: Uma das coisas que muitas pessoas não sabem e que é fundamental saber: o processo tem a validade de três anos, desde a data de entrega da candidatura. Ao fim deste tempo, a candidatura deixa de ser válida, pelo que – muito importante – cabe a quem se candidata, manifestar a sua intenção de continuar à espera, caso a criança não chegue nesse período.

Duda, o cozinheiro

Quando eu era miúdo, lembro-me de passar a vida a “chatear” a minha mãe e a minha avó, para fazermos bolos ao fim de semana. Acho que adorava aquele caos que gerava na cozinha mais do que comer, propriamente o bolo. E também ficava muito feliz de ver a satisfação das outras pessoas a comer o bolo que tinha feito (fazia sempre uma surpresa a alguém lá de casa), depois da minha imensa dedicação ao assunto. A verdade é que essas tornaram-se memórias muito doces, em todos os sentidos, que guardo até hoje. O Duda adora ajudar (só tem que estar para aí virado) e há dias desafiou o Miguel para fazerem qualquer coisa com as formas que viu num armário. Foram para a cozinha e o resultado foi este. Eu estava a trabalhar e, quando cheguei, o Duda disse-me, orgulhoso, que tinha feito queques de chocolate com pepitas de chocolate com o pai Miguel, que já tinha comido dois e que, assim, eu já tinha pequeno almoço. Hoje partilho convosco a BD que saiu desta aventura e também a receita para que possam fazer com as vossas crianças em casa. É super simples e prática. Vão precisar de: 3 ovos 2 chávenas de chá de açucar 2 chávenas de chá de farinha 1 chávena de chá de óleo 1 chávena de chá de leite 1 chávena de chá de chocolate em pó 1 colher de sohremesa de fermento em pó Como preparar: Pré-aquecer o forno a 180°C Bater os ovos com o açúcar até ficar um creme homogéneo Adicionar os restantes ingredientes e mexer bem Distribuir em formas de queques Levar ao forno durante 20/25 minutos E já está. Temos lanche e memórias para guardar <3

Dia das mães

“Eu não tenho mãe”. Por maioria de razão ou por herança cultura, ouvir isto da boca de uma criança remete-nos imediatamente, a nós que ouvimos, para um cenário que – pelo menos na nossa cabeça – é, necessariamente, de dor e sofrimento. É natural que, à partida, assim o sintamos. Habituámo-nos que uma família é composta por pai e mãe (mesmo quando assim não era porque, diz a “tradição” que é assim que deve ser). E o mesmo se passa quando alguém diz “não tenho pai”, exatamente pelas mesmas razões. Mas a verdade é que há configurações familiares distintas e não ter pai ou não ter mãe não é, necessariamente, a desgraça que parece a quem ouve. Claro que estou a falar, em particular, do Duda que recorrentemente responde “eu não tenho mãe”, quando o tema é abordado. E nas últimas semanas, o tema tem sido recorrente, por motivos óbvios: o dia da mãe está a chegar. E agora, como se gere tudo isto? Bom, antes de mais, em linha com o que tenho defendido, “enterrar a cabeça na areia” sobre um tema (seja ele qual for), não é saudável e, pior, só vai aumentar a incerteza e a insegurança da criança e, aqui, uma vez mais, a comunicação é a chave do sucesso, nomeadamente, para desmistificar aquilo que pode ter sido dito a uma criança que chega à família pela via da adoção ainda na casa de acolhimento ou aquilo que continua a ser dito, diariamente, nas escolas, porque os conteúdos programáticos assim o defendem. Por partes: Quando é decretada a adotabilidade de uma criança, ela começa a ser preparada para o facto de vir a pertencer a uma outra família. E logo aqui, na esmagadora maioria das vezes, o que lhes é dito é que vão ter outro pai e outra mãe. Isto cria uma expetativa na criança, inevitavelmente. E se depois não for assim (porque pode ser uma adoção mono ou homoparental), há um conflito que terá que ser gerido. E logo aqui, o discurso e a preparação devem mudar e devem ser adotadas medidas de preparação da integração da criança de forma mais inclusiva e abrangente. Além disto, acresce que os manuais escolares, os conteúdos programáticos, as atividades de enriquecimento curricular ou até as atividades que as crianças frequentam fora da escola, navegam ao sabor desta efemérides. E é inquestionável que elas podem ser um catalizador do sofrimento para milhares de crianças e não falo apenas de crianças com famílias idênticas à nossa. Existe crianças vítimas de alienação parental que estão privadas do convívio com o pai ou com a mãe, há crianças abandonadas por pai ou por mãe, há crianças em casas de acolhimento que não têm (ou não podem ter, por questões de proteção legal) contacto com o pai ou com a mãe. Enfim, se refletirmos um pouco, com alguma empatia, estou certo que encontraremos algum caso que conhecemos para quem uma festa do dia do pai ou do dia da mãe, na escola, foi apenas motivo para uma enorme choradeira e para um sofrimento que nem nos passa pela cabeça. Claro que muitas pessoas me dirão: Mas depois há quem seja feliz nesse contexto e não podemos, também, privar essas crianças porque as outras não têm. E é claro que não podemos. Mas podemos trabalhar, de forma mais ampla, para não deixar nenhuma crinaça para trás, independentemente da sua realidade. Um pequeno exemplo de como lidar com a situação é: trabalhar o dia da família e deixar a criança escolher quem identifica como tal. Ou, no momento de fazer o presente para o dia da mãe ou do dia do pai, reforçar que o motivo pelo qual se faz o presente (ou se canta a música, ou o que for), está relacionado com a efeméride mas que cada criança pode e deve escolher a quem pretende oferecer, de acordo com o que a sua realidade – e principalmente, o seu coração – ditar. E acreditem (por experiência própria) que, na maioria das vezes, basta este discurso aberto e inclusivo, para passarmos de uma situação de sofrimento, a uma situação de prazer. O Duda, este ano, escolheu fazer dois presentes sobre os dia das mães e escolheu oferecê-lo às duas avós. No dia dos pais, também fez dois, para oferecer-nos aqui em casa. E pediu para, no domingo dia 2 de Maio, passar tempo com ambas as avós. Se tod@s acreditarmos, tudo pode ser bem mais simples do que parece. Feliz dia das mães, para todas as pessoas  

Fim de semana a dois

É, mais ou menos, consensual que um casal precisa de momentos a sós, sem crianças. Para namorar, para recuperar forças, para recarregar baterias e até para discutirem, tranquilamente, perspetivas e modos de agir na parentalidade. É saudável e necessário que isso aconteça. Depois, por outro lado, há pais e mães que não o fazem e outr@ que, fazendo-o, são invadidos por sentimentos de culpa. Acho que esses sentimentos são naturais e podem surgir a cada um@ de nós. Queremos o melhor para @s noss@s filhos e se um fim de semana sem el@s nos faz pensar que isso os magoa, naturalmente que nos é desconfortável. No fim de semana passado eu e o Miguel decidimos ir para o Alentejo, só os dois. Pela primeira vez. E aqui começa a nossa gincana por esta aventura. Habitualmente só comunicamos ao Duda que algo vai acontecer, em cima do acontecimento, para que não se gere um constante sentimento de ansiedade (quer seja por algo que ele quer muito, quer seja por algo que sabemos, à partida, que ele não vai adorar). Excecionalmente, desta vez, eu descaí-me algumas semanas antes. E foram semanas, digamos…. “animadas”. Foi um tema costante e recorrente. Uma das coisas mais engraçadas e “discretas” que ele nos disse, para manifestar o seu desagrado, foi “vocês têm a certeza que têm dinheiro para ir pagar uma casa no alentejo?”. Rimos, claro. Mas também absorvemos a mensagem. É impossível fazer uma associação direta entre os dois factos de que quer falar-vos, mas por um lado, todas as crianças reagem mal a que os pais e mães se ausentem sem eles. Por outro lado, é igualmente verdade que as crianças que são filh@s pela via da adoção têm, subjacente, de alguma forma, um sentimento de abandono e é relativamente fácil que, de forma inconsciente, lhes provoquemos memórias mais duras da sua breve existência. Nunca saberemos, claro, se há conexão entre estes dois factos. Provavelmente, o Duda, mesmo que fosse filho biológico teria o mesmo comportamento. Ou não. O Duda já tinha ficado com outras pessoas da família, mas as ausências foram sempre justificadas. Uma festa de crescidos, com amigos. Uma ausência profissional. E ele percebeu e acedeu sempre, com muita facilidade. Agora, irem os dois, namorar, passear, e não me levarem? Aquela pequena cabeça não conseguia entender. Quando o Duda chegou e quando ainda era só eu, nunca fui passar fins de semana de lazer. Depois o Miguel chegou às nossas vidas e durante algum tempo, achámos prudente não o fazer. A isto soma-se uma pandemia e as suas limitações e a verdade é que, já com sete anos, o Duda foi confrontado com esta situação pela primeira vez. E não gostou. O que fazer então? Bem, não há fórmlas mágicas, mas para nós a comunicação é sempre o caminho. O Duda expressa-se muito bem e consegue, muitas vezes, dizer o que sente. E foi perentório em afirmar que ficou triste porque não o levámos. E ainda bem que o faz. Para mim é um sinal claro de que ele sabe que pode, sempre, falar do que sente. A verdade é que, posso garantir-vos, este fim de semana foi maravilhoso. Pelo que nos reforçou enquanto casal, pelo que tivemos capacidade de conversar fora da rotina, pelo que pudemos discutir sobre o que cada um de nós pensa e sente. E também pelas saudades que sentimos do Duda, da nossa casa e da nossa rotina que só nos mostra, de forma clara, o quanto somos afortunados. De facto, às vezes, é preciso afastarmo-nos, para não perder de vista a valorização que damos ao que temos. E no nosso regresso, o Duda “fez as pazes” connosco e sentia-se que não havia espaço para zangas nem birras. O importante é que estávamos juntos de novo.

A escolha das pretensões – Episódio 5

Antes de avançar para o momento “pós processo” e de vos falar sobre a gestão de expetativa e ansiedade, decidi fazer uma publicação dedicada, exclusivamente, à escolha das nossas pretensões em relação à criança. As pretensões são as condições particulares de cada criança com que estamos, ou não, dispostos a lidar. Muitas pessoas têm entrado em contacto comigo, acerca deste aspeto. Algumas acham que não podemos fazer nenhuma escolha e que é “venha quem vier” e outras, ao contrário, imaginam que pode escolher-se até a cor dos olhos. Nem uma coisa, nem outra. As pretensões não são um catálogo, mas também não seria adequado não avaliar necessidades e expectativas. A escolha das pretensões tem um papel fundamental em todo o processo. Por dois motivos: Primeiro, porque quanto mais honestas e sinceras as nossas escolhas, maior probabilidade de acontecer um “match” adequado às necessidades da criança e às expectativas da família. E depois porque também são essas escolhas que irão determinar, em certa medida, o tempo de espera. Já aqui referi, inclusivamente, números que o provam. (Podem reler, aqui) Não existe um momento de confronto e pronto. No meu caso, as técnicas da SCML entregaram-me um documento com todas as características de crianças que já passaram por processo de adoção, por forma a garantir a maior abrangência possivel. Ou seja, se houve, pelo menos, uma criança com determinada característica física, psicológica ou de saúde, essa situação passa a integrar esta lista de pretensões. A entrega do documento é feita, logo, na primeira entrevista e o objetivo é que seja entregue, apenas, no fim do estudo de candidatura. Isto garante-nos tempo, espaço e privacidade para refletirmos a sós e em família sobre aquilo com que estamos preparados para lidar. Posso dizer-vos que este confronto com as minhas limitações e preconceitos foi, provavelmente, a fase mais dura de todo o processo. Há muitas coisas sobre as coisas nunca tinha ouvido falar e outras que nunca me tinham ocorrido, mas que são possibilidades: síndrome de feto alcoólico, pé boto, peito escavado, abandono total sem registo, sequer, do dia de nascimento. Estas e muitas outras características da criança e da família biológica, constam desse documento. E a dúvida é grande: Qual é o limite? Até onde consigo ir? Estou ou não preparado para lidar com esta ou aquela situação? Por outro lado, sabemos que quanto mais alargadas forem as pretensões, menos tempo demorará a chegada da criança. Mas também sabem que não é sensato alargar pretensões só para diminuir o tempo de espera e correr o risco imenso de provocar sofrimento à criança e à família, por não estar preparada para lidar com alguma coisa. Todas as pretensões são legítimas e se, de facto, uma família quer apenas uma criança até um ano, ou só quer realmente um rapaz ou uma rapariga, enfim, seja qual for a pretensão, ela deve ser respeitada, mesmo tendo a consciência de que isso poderá significar um tempo de espera muito superior. Em cada característica apresentada, podemos escolher: “aceito”, “não aceito” ou “a refletir/ponderar”. A minha decisão foi, em tudo em que eu tinha alguma dúvida acentuada, optei por escolher a opção “não aceito”. Não temos nem devemos aceitar tudo, se isso nos deixar numa posição desconfortável. A mim, ajudou-me o facto de nunca ter perdido de vista que se tratava do meu filho ou filha. E que, uma vez chegad@, jamais voltaria a sair do meu colo.

Teatro para bebés

Já ouviram falar em teatro para bebés? Sim, bebés. E quando digo bebés falo, mesmo de bebés. Crianças de colo. Antes do Duda chegar, eu pensava muitas vezes nas milhares de coisas que quereria fazer com ele. E uma delas era, inevitavelmente, leva-lo ao teatro. E, para mim, seria tarefa fácil levá-lo ao teatro, independentemente da idade com que chegasse. Porque há muito que conheço o trabalho da Sandra José. A Sandra é atriz, escritora, autora de teatro, professora de teatro e música. Mas sei, na verdade, por experiências à minha volta que há muitos pais e muitas mães que pensam, muitas vezes, “a criança ainda é muito pequena para ir ao teatro”. E na maioria das vezes, essa é a verdade. Maaaassssss, isso já não tem que ser assim. A Sandra é uma artista de mão cheia, nas diversas áreas a que se dedica e uma delas é, precisamente, teatro para bebés. O espetáculo é totalmente pensado para crianças dos 6 meses aos 3 anos, explorando várias áreas de estimulação e desenvolvimento, nomeadamente, através da música. Claro que qualquer pessoa pode (e deve, diria eu) assistir a estes espetáculos mas o que é verdadeiramente incrível é ver crianças tão pequeninas, completamente “presas” ao que se passa à sua volta. Não há palco e plateia. Há uma série de acontecimentos ali, diante dos olhos das nossas crianças que vibram como se fizessem parte da história. E é delicioso de ver. Nesta semana em que os teatros retomam a sua atividade, deixo-vos a sugestão para irem até à companhia de Teatro “Lua Cheia” em Carnide, Lisboa e deixarem-se levar pela magia que as quatro atrizes (que se revezam), fazem acontecer. Apesar de elas só estarem, de forma regular, em Lisboa, isto bem conversadinho, elas vão onde tiverem público. Por isso, é propor que elas vão. O valor de bilhetes é de 7 euros. Criação e encenação: Sandra José Interpretação: Carolina Picoito Pinto, Maria João Trindade, Sara Ferraz e Sandra José Reservas: 938 018 777 Mais informações: http://www.luacheia.pt/

Estudo de candidatura a acabar – e agora? Episódio 4

Com a aproximação do fim do período do estudo de candidatura, aumenta a ansiedade. Lembram-se? Boca seca, pernas a tremer, ansiedade “aos gritos”. Espero? Como assim, espero? Não dá para ser já? Este sentimento crece à medida que se aproxima o momento em que sentimos que tudo o que podemos fazer está feito e que “resta esperar”. Queremos ver a questão resolvida. Queremos ser pais e mães, queremos a família que ansiámos, queremos tudo e pouco podemos fazer por isso. Aproxima-se o momento em que o processo deixa de estar “nas nossas mãos”, para viver o seu próprio percurso onde nada do que façamos vai mudar a realidade. É que até aqui tínhamos, pelo menos, a ilusão de que alguma coisa dependia de nós. Havia reuniões, encontros, conversas sobre isto e a nossa intervenção era clara. E a partir daqui? A partir daqui aproxima-se a fase, penso eu, mais complexa do processo. Resta esperar, gerir a expetativa e seguir uma vida que queremos diferentes mas continua igual. No final desta fase do processo há, ainda, dois momentos muito importantes. O primeiro é a visita das técnicas a casa. No meu caso foi-me pedido que estivessem presentes duas pessoas: uma da família, outra fora da família. Levei a minha irmã e a Joana, uma amiga de toda a vida adulta. Sabia que elas representariam, na perfeição, todas as pessoas à minha volta que torciam pelo sucesso de tudo aquilo que estava a acontecer. Neste momento entregamos os documentos que definem as nossas pretensões em relação à criança: idade, etnia, condição de saúde, entre muitas outras questões que, até então, não nos tinha ocorrido que nos confrontaríamos com elas. Mas disto falarei noutro post. Depois falta a formação C. A formação C é composta por 5 sessões que ocorrem quinzenalmente, ao longo de dois meses e que tem como propósito a preparação para a chegada da crinança. Ela acontece, habitualmente, quando se estima que faltará cerca de um ano para a chegada da criança. Como as minha pretensões eram alargadas, logo a seguir ao estudo de candidatura, os seviços da Santa Casa de Lisboa, entenderam que seria apropriado fazer, logo, esta formação. E assim foi. Terminei o estudo de candidatura em Novembro de 2016 e iniciei a formação C em Fevereiro do ano seguinte. Posso garantir-vos que foi das coisas mais úteis que fiz na vida toda. Primeiro, porque a formação nos prepara, genericamente, para a chegada de uma criança (disse muitas vezes que todas as pessoas candidatas a ser pai ou mãe deviam fazê-la), e depois porque nos confronta com situações práticas, reais, de outras famílias que se formaram pela via da adoção. Mais uma vez, só tenho a aplaudir a competência e empenho das técnicas da SCML que me deram a formação. Pouco mais de um ano depois, o Duda chegou. No próximo episódio, conto-vos como foi a gestão da ansiedade até ao primeiro abraço.

Brincar na rua

“Os presos têm mais tempo livre fora da cela do que as crianças no dia a dia”. Isto lido assim, é assustador. Quem o afirma é Carlos Neto, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa. Podem ler o artigo publicado pela resvista Visão, em Dezembro de 2020, sobre o livro (“Libertem as crianças”), que lançou em Janeiro deste ano, aqui: https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2020-12-05-os-presos-tem-mais-tempo-livre-fora-da-cela-do-que-as-criancas-no-dia-a-dia/ Nesta entrevista, o professor afirma, ainda, que “A decadência é de tal ordem que a rua como local de jogo está em vias de extinção. Antigamente, saíamos da escola e íamos para a rua brincar com os amigos até a mãe chamar para jantar. Hoje, as crianças não sabem o que são pirilampos, porque nunca saíram depois de escurecer. Não há mais perigo agora, somos dos países mais seguros do mundo.” Esta é, seguramente, uma luta, uma preocução de vários pais e várias mães que, na correria do dia a dia, se deparam com a dificuldade de levar @s filh@s ao jardim, ao parque, à rua para brincar. Sobra, muitas vezes, o ipad, o telemóvel ou qualquer outro gadget que nos dá, a nós educadores, a sensação de estarmos a fazer alguma coisa pelo lazer dos nosso filhos. Ao longo dos últimos dias partilhei várias imagens, nas redes sociais, do Duda a brincar – sozinho ou com amig@s – na lama, no quintal do avô e da avó, no jardim. Não quero assumir um papel moralista, nem pouco mais ou menos. Mas aqui em casa, esforçamo-nos para que “a rua” seja uma rotina, diária, na vida do Duda. Ele sabe que pode sujar-se, arrastar-se na terra e na lama, construir o que lhe apetecer e que a sua imaginação ditar. E tem-nos corrido muito bem. O Duda “puxa pela cabeça”, é criativo, adora a natureza, explora limites em ambiente de risco controlado e supervisionado por nós. Na imagem deste texto, o pai Miguel e o Duda andaram a explorar no jardim da estrela e o resultado foi a origem de uma BD que o Duda adorou fazer e que nos pediu para imprimirmos para levar para a escola. E quer fazer mais. Quer escrever mais estórias da sua história. E nós também queremos. E quisemos, também, partilhar isto convosco. Porque está nas mãos de tod@s nós, alterar o rumo que a sociedade está a tomar. Sem culpa, sem sobrecarga. Nem sempre é possível. Mas às vezes, é. E sempre que for, façamo-lo. Pel@s noss@s filh@s e pela socidade que queremos deixar-lhes. Para fazermos as nossas crianças felizes, às vezes basta alguma disponibilidade e uma boa dose de imaginação. (para quem quiser usar a ideia, a app que o Miguel usou, chama-se comic strip)

O Estudo da candidatura e a queda dos mitos – Episódio 3

Chegou, então, o momento em que alguém nos vai perguntar coisas. E na nossa cabeça pairam as questões que ouvimos falar sobre a adoção. Terei condições financeiras? Será que vão considerar que ganho o suficiente? O quarto será o indicado? Claro que passámos por estas questões, mas o processo está longe de ser assente nestes pontos. É recorrente ouvirmos alguém dizer que “eles têm todas as condições e ninguém lhes dá uma criança” ou “eles nem impuseram nenhuma restrição e mesmo assim estão à espera há anos”. Longe de mim julgar as experiências pessoais de cada um. Não estou aqui a afirmar que não existam processos onde foram cometidos erros. Com certeza que existem. Mas a regra é clara, especialmente depois da revisão da lei de adoção de 2015 e depois também a de 2018. E com toda a certeza vos digo: Não é possível que alguém que não coloca restrições nas suas pretensões, esteja anos à espera. E porquê? Porque existem crianças com necessidades específicas, por questões de deficiência, desenvolvimento, etc para quem o sistema não tem resposta. Ou seja, na prática, há, hoje, cerca de duzentas crianças que acabam por ser “inadotáveis”, porque não existe nenhuma família candidata que se disponha a lidar com as suas necessidades particulares ou a haver, foi considerado pelos serviços técnicos que a família em questão não está apta para ser resposta a determinada criança. Há uma situação em que a família candidata, teve uma proposta de uma criança um mês depois de terminar o estudo de candidatura. Era uma criança de um ano, com trissomia 21 e era a única família, na lista de espera de candidaturas, disponível para a acolher. Todas as pretensões são legítimas e devemos ser honestos connosco e com quem faz o estudo da candidatura quanto às características e particularidades da criança que estamos disponíveis para adotar. É um projeto para a vida e a redução de probabilidade de erro é, também, da nossa responsabilidade. Na prática: eu estava a candidatar-me sozinho. Era impossível estar disponível para uma criança que me exigisse que eu deixasse de trabalhar para tomar conta dela, por total dependência. Eu não quereria estar nessa situação, mas mesmo que quisesse, seria inviável. Se eu tivesse uma criança que me exigisse deixar de trabalhar, como lhe garantiria, depois, o mais básico, sequer? Acho mesmo muito importante desmistificar esta questão dos tempos de espera. O meu foi reduzido (em relação à média) porque, de facto, as minhas pretensões eram mais alargardas do que a média. Mas vamos a números: “Daqueles 1919 candidatos, segundo dados consultados pelo jornal “Público”, 71% pretendiam adotar bebés com idades até aos três anos, que correspondem apenas a 20% das crianças que aguardam adoção. Em 2018, as crianças com sete anos ou mais estava em maioria (65%), mas estas foram procuradas por apenas 5% dos candidatos.” – in JN 02/Dez/2019.  Podem ler a notícia, aqui. (citando o relatório da Comissão Nacional para a Adoção. O relatório anual é público e pode ser consultado no site da Segurança Social). Posto isto, e voltando ao estudo de candidatura, o que a minha experiência me mostrou foram duas técnicas da Unidade de adoção, apadrinhamento civil e acolhimento familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, profundamente comprometidas com o futura da criança que viesse a adotar, com o meu bem estar, com o bem estar desta futura família e com o “match” perfeito entre mim e esta criança que não sabíamos, nesta altura, quem era. Falámos da minha vida, do meu passado, da minha família, da minha estrura. Fiz psicotécnicos. As entrevistas foram sempre momentos de enorme prazer, de partilha, de emoção. Se falámos de dinheiro? Sim, claro. É essencial garantir que temos como sustentar uma criança. Mas o que dizer do “tens que ter um quarto para cada criança”, ou “tens que ter muito dinheiro”? Não sei o que isso é. Era um homem, sozinho, artista, freelancer, com uma declaração de IRS perfeitamente mediana. A principal preocupação não foi essa, de todo. Algures, nestes seis meses, fazemos a Sessão de Formação B. Esta formação serve em grande parte, exatamente para desfazer estes mitos e outros, em relação à visão “cor de rosa” da adoção. Todas as formações que fiz ajudaram-me muito e esta não foi exceção. Gestão de expetativas, perceção das particularidades de uma criança adotada, etc. No próximo episódio conto-vos como terminaram estes seis meses e sobre a formação C.

E na escola, como tem sido?

Nunca ignorei – e acho que não devemos fazê-lo – que o facto de o Duda ter uma composição familiar própria, poderia expô-lo a fragilidades e olhares de quem possa, eventualmente, ter uma opinião vincada sobre como deve ser uma família. A ciência é muito clara quanto ao desenvolvimento de uma criança em ambiente familiar homoafetivo e, quanto a isso, não tinha dúvidas nem medos. Mas por outro lado, as crianças não têm filtro e facilmente absorvem os preconceitos d@s adult@s e verbalizam aquilo que, quem a educa, prefere muitas vezes dizer, apenas, em voz baixa. Há inúmeras fontes de preconceito, naturalmente. Cresci a ouvir todo o tipo de insultos à minha volta. Havia piadas sobre as pessoas gordas, as pessoas que usam óculos, as pessoas que não tinham o comportamento tido como “normal”. E, por isso, sabia que o facto de ter um pai (no início) ou dois pais (como atualmente) poderia expô-lo ao preconceito, mesmo com a consciência de que a dita “familia tradicional” é uma construção social que só existe na nossa imaginação. A minha opção foi sempre educá-lo de forma a mostrar-lhe a diversidade e a igualdade por um lado e, por outro, dar-lhe “arcabouço” emocional para a possibilidade (quase certa) de ter que lidar com confrontos sobre esse assunto. Nada se consegue sozinho e achei sempre que este era e deveria ser um trabalho conjunto entre casa e escola e tentei, pelos sítios onde o Duda foi passando, estabelecer essa parceria com as educadoras e, agora, com a professora. Já aqui escrevi, nem sempre (ou quase nunca) os manuais escolares ajudam, os materiais de apoio também não. Com honrosas exceções (que são cada vez mais, felizmente), o estudo da família tem sempre por base a família heteronormativa e mesmo nesses casos, aborda-se sempre a família como se não houvesse filhos de pais separados. E no mesmo post, contei-vos que cheguei a um livro e que trabalhámos aqui em casa em conjunto com a professora do Duda. Depois de uma terrível experiência com a educadora do ano passado, este ano tem sido um prazer imenso trabalhar para a educação do Duda e, no fundo, de todas as crianças da turma. Nem sempre a reação ao novo é sinal de preconceito. E a diferença vê-se na reação quando oferecemos ajuda. A professora do Duda tem sido absolutamente extraordinária. Se sente que ele não está bem, telefona. Se percebe que há temas para os quais não está tão à vontade, pede a nossa ajuda. Fabrica materiais adaptados à realidade do Duda e das outras crianças. Ouve, atentamente, aquilo que eu, enquanto homem gay, senti por estar deslocado e ser obrigado a “enfiar-me” nos padrões das outras pessoas e o sofrimento que isso me causou e percebe claramente a importância do que lhe digo e que nada disto é um capricho. É , sim, uma questão elementar de inclusão e equidade. Daqui saíram diversas tomadas de consciência, várias estratégias para lidar com as (muitas) realidades familiares diferentes que tem na turma e, mais do que tudo, deu confiança ao Duda para um dia – por sua decisão – pedir à professora para contar aos colegas a sua história de vida e o seu percurso. O resultado de toda esta situação foi que as outras crianças pediram à professora para também partilharem a sua história de vida e falar, abertamente, sobre as suas famílias. Num ano tão atípico como o que estamos a viver em que não podemos entrar na escola, não temos como conversar cara a cara e “medir o pulso” àquilo que se passa dentro dos muros da escola, tudo isto ganha uma dimensão e relevância ainda maior e, por isso, deixo aqui o meu profundo agradecimento à professora pelo seu empenho e dedicação naquilo que é, no fundo, a sua verdadeira missão: a de formar cidadãos livres de pensamento, inclusivos e tolerantes. Nem sempre o desconhecimento tem origem no preconceito. Nem sempre o desconhecimento leva a atitudes incorretas e desrespeitosas. Temos tod@s a obrigação de formar estas crianças para serem adultos saudáveis e livres e, portanto, tod@s temos um papel, tod@s podemos fazer mais e melhor, tod@s importam no processo de desconstrução dos preconceitos. Portanto, a resposta à pergunta que me têm feito muitas vezes e que dá título ao post. As coisas correm lindamente. O Duda é absolutamente integrado na turma e na escola, tem contato regular com os colegas fora da escola. Combina idas ao jardim com @s amiguinh@s e nós ficamos à conversa com os pais e as mães del@s enquanto as crianças se esfalfam e espalham no parque. Haja amor.

A ansiedade aumenta – Episódio 2

É natural que a ansiedade cresça quando sentimos que já fizemos o que podíamos e que agora dependemos de terceiras pessoas para que processo avance. No episódio anterior ficámos aí. Papelada tratada. E agora? No meu caso, o contacto foi rápido após essa entrega. Não sei precisar exatamente quanto tempo demorou, mas sei que não demorou mais do que duas semanas até que me chamassem para a primeira entrevista/conversa. (Claro que a mim me pareceram anos). Aqui vamos nós, pensei…. e, novamente… Boca seca, pernas a tremer, ansiedade “aos gritos”. Pediram-me para reservar a manhã para este assunto, porque levaria pelo menos duas horas e meia. Cheguei lá e fui extraordinariamente recebido, por quem tem muitos anos disto e sabe bem a ansiedade em que está alguém que se candidata à adoção. O estudo de candidatura é feito por uma equipa de duas pessoas: um@ psicólog@ e um@ assistente social. No meu caso eram duas mulheres. Extraordinárias profissionais que, desde o primeiro momento me mostraram que o objetivo era que tudo corresse da melhor forma e, para tal, era importante a minha total abertura e transparência. É inevitável que, pelo menos no início, não nos sintamos tentados a medir o que dizemos, a forma como dizemos. É natural que nos sintamos tentad@s a dizer aquilo que achamos que querem ouvir. Mas não só não adianta como não traz nada de benéfico ao processo. Outro sentimento comum para muitas pessoas que se candidatam à adoção é a de invasão de privacidade, a sensação de que estão a tocar-nos na mais profunda intimidade. Na nossa, da nossa família e até daqueles que nos rodeiam em várias áreas das nossas vidas. E estão. E é importante que estejam. Não por um interesse pessoal ou quase “voyeurista” daquilo que guardamos dentro de nós mas sim porque, por um lado é fundamental fazer essa avaliação e esse estudo de candidatura. E por outro lado quanto maior for o conhecimento sobre quem se candidata e melhor avaliadas forem as suas expetativas, maior a probabilidade de um bom “match” entre a criança e a família. Não podemos, nunca, perder de vista o facto mais importante de tudo isto: estamos a falar da vida de crianças. E estamos, sempre, à procura da melhor resposta para cada uma delas. Todo o processo trata de procuras famílias para crianças e não crianças para famílias. É, por tudo isto, fundamental que vamos com a maior disponibilidade possível e que trabalhemos, de forma dinâmica e em conjunto com @s técnic@s todos os aspetos importantes. Que lhes confessemos as nossas ansiedades, os nossos medos, os nossos limites. Não tenho dúvida nenhuma que – além da sorte gigantesca que tive com o filho que a vida me deu – parte do sucesso de todo este processo se deve às longas horas de conversa que tive com aquelas duas técnicas e ao quanto isso se tranformou numa aferição muito precisa das minhas capacidades e expectativas. Este período de estudo de candidatura tem um prazo estipulado. E aqui se desfaz um dos mitos associados ao processo de adoção. Há muitas pessoas que acham que ao longo de todo o tempo de espera pela chegada da criança, as famílias estão em “avaliação”. Isso não é verdade. A lei prevê que o estudo da candidatura deve ser feito no prazo máximo de seis meses. Pode, por razões atendíveis e justificadas, ser prolongado (Por exemplo, quem se candidata tem um período de ausência de dois meses por questões profissionais). Ainda assim o prolongamento desse prazo é sempre conversado e acordado com as pessoas candidatas. O tempo de espera pela chegada da criança é outro assunto que falarei futuramente. Todo o processo é dinâmico e, portanto, não existe o momento do sim ou não, do tudo ou nada. Ninguém “passa” ou “chumba” na última entrevista. Ao longo de todo o estudo de candidatura, vamos percebendo para que lado a coisa se encaminha. Mas claro que até que nos digam, ou que recebamos o documento oficial onde conste que estamos aptos, passamos o tempo em modo: Boca seca, pernas a tremer, ansiedade “aos gritos”. O meu processo foi muito leve e foram muitas as questões que abordámos e aprofundámos. Ri, chorei, diverti-me, emocionei-me ao longo destes seis meses. E as questões que abordámos e discutimos são muito diferentes daquelas que muitas pessoas pensa que nos fazem, durante a dita “avaliação”. Conto-vos tudo no próximo episódio.

Este espaço também é vosso

Quando tomei a decisão de criar este projeto, fi-lo muito por incentivo das pessoas que me rodeavam e de tantas outras que não conhecia mas que me mandavam mensagens a fazer questões sobre o processo de adoção e sobre a minha história, em particular. Ponderei e amadureci a ideia e decidi que, de facto, o “mundo” merecia conhecer a nossa história. Afinal, as histórias de amor devem, sempre, ser partilhadas. Foi isso que me norteou e no dia 19 deste mês nasceu este espaço, criado pela maravilhosa equipa da FVD – creative agency, responsável por toda a imagem deste projecto. Acreditei, portanto que havia espaço e até, talvez, necessidade de abordar os três grandes temas a que me propus: a parentalidade exercida exclusivamente no masculino, a parentalidade pela via da adoção e ainda a parentalidade e as famílias compostas por ou com pessoas LGBTI+. Imaginei que com o tempo, as pessoas se sentissem à vontade para me confiar algumas histórias da sua vida e até que me pedissem uma ou outra orientação sobre a parte processual da adoção, dado que já passei por ela. O que não imaginava, de todo, é que pouco mais de uma semana depois do lançamento deste projeto estivesse a escrever este texto. E porquê? Porque nunca me passou pela cabeça que em tão pouco tempo me chegassem tantas pessoas, de tantos quadrantes, com tantas experiências diferentes dispostas a partilhar um pouco da sua vida e com vontade de se envolverem nesta onda de amor que este projeto pretende ser. E posso dizer-vos que escrevo de coração cheio com tantas, mas tantas mensagens que me chegaram, que seria impossível referir todas. Ainda assim – e com a devida autorização de quem as enviou – partilho convosco um pequeno excerto de três dessas histórias. A primeira veio de um homem que, com toda a frontalidade e humildade, me disse reconhecer que é fruto de uma sociedade e uma educação estruturalmente assentes no preconceito e que não podia negar que, embora hoje encare uma família homoparental de forma diferente de há uns anos, tinha que assumir que “há coisas que ainda fazem confusão”. Consciente de que o preconceito se destrói de dentro para fora disse-me, ainda, que está num processo “para encarar as coisas com total normalidade”. Por fim, disse-me que ouvir a minha história num live do instagram e acompanhar o “paipratodaaobra” foi mais uma ajuda para esse processo de desconstrução. A segunda veio de uma mulher que me contou a história da sua família para terem um filho. As tentativas de engravidar, os tratamentos de fertilidade, o desgaste físico, emocional e psicológico. As dúvidas, os medos, a ansiedade de não se chegar aonde mais se deseja. E ao longo de todo este processo a hipótese que colocavam de uma eventual parentalidade pela via da adoção. E aí novamente o medo, a ansiedade e a dúvida que tudo isso acarretava. Quando decidiram parar as tentativas de gravidez, deram-se o tempo necessário de luto. O desejo de parentalidade permanecia e a adoção podia ser um caminho. Mas as feridas, ainda recentes, traziam mais medo do que certeza. Perguntou-me se não hesitei ou se tive medo. Perguntou-se se nunca duvidei que seria capaz. A verdade – talvez por uma boa dose de insconsciência – é que nunca tive medo. Achei sempre que fazia parte do meu caminho, disse-lhe. Perguntou-me por onde começar. E acabámos a conversa com esta mulher a dizer-me que, muito provavelmente, iriam agendar a sessão de formação A, para ponderarem a possibilidade de adoção. A terceira história veio pela voz de um homem com idade semelhante à minha. Mas a perspetiva era precisamente a contrária. Este homem foi adotado. Mas nunca lhe contaram. Nunca lhe permitiram que soubesse a sua verdadeira história, a sua origem. Cresceu com a dúvida a vida inteira. Cresceu com o confronto das abissais diferenças físicas entre si, o pai e a mãe e um irmão. E com os comentários que isso gerou, toda a sua vida. Segundo conta, ter-lhe-ão dito que houve uma conversa quando era criança. Ele não se lembra. Lembra-se, sim de há cerca de seis anos, o seu telefone ter tocado. Era a sua irmã biológica do outro lado. Foi ela que lhe contou, quando ele tinha cerca de trinta anos, o que toda a vida lhe esconderam. E no fim de tudo isto, este homem afirma perentoriamente que sabe que o pai e a mãe que conheceu toda a vida fizeram o melhor que sabiam e considera-se um privilegiado. Este homem pediu-me – sim, pediu-me – para que a verdade e a transparência guiassem, sempre, os princípios da nossa família. E aqui, publicamente, deixo-lhe a promessa que assim será. É difícil em tão poucas linhas, conseguir descrever as emoções que estas e outras histórias me provocaram e o quanto eu me sinto feliz e realizado por sentir que o paipratodaaobra tem servido para tantas e tão maravilhosas partilhas. Termino a dizer que “espalhar amor” é, de facto, o principal objetivo deste projeto e, por isso, não há palavras que descrevam a minha gratidão para com todas as pessoas que nos seguem e decidem partilhar-se connosco. Este espaço também é vosso. Sejam muito bem vind@s

Primeiros passos – Episódio 1

“Adotar é acreditar que a história é mais forte que a hereditariedade, que o AMOR é mais forte que o destino”, Lídia Weber Foi sempre esta a minha convicção e foi, exatamente, com este sentimento que avancei com o processo que haveria de permitir-me concretizar o maior sonho da minha vida: o de ser pai e sê-lo precisamente pela via da adoção. Em Setembro de 2015, decidi que era hora de avançar. Não tive dúvidas de que era isso que queria fazer naquele momento da minha vida e no início de 2016 fui à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para saber o que tinha que fazer. Saí de lá com a Sessão de Formação A marcada. “E agora? O que se segue?” Esta foi a pergunta que mais pairou na minha cabeça, ao longo de todo o processo. “Agora vai para casa e aguarda a convocatória”. Boca seca, pernas a tremer, ansiedade “aos gritos”. Espero? Como assim, espero? Não dá para ser já? Claro que não dá e ainda bem que não dá. É o sucesso do processo que garante o sucesso da adoção e, por conseguinte, a felicidade da futura família. Dias depois recebi a convocatória para a formação A com data para dali a um mês (que a mim, obviamente, pareceu-me um ano). A formação A é, basicamente, uma sessão de esclarecimento que pretende responder a questões legais e a questões práticas. Quem pode adotar? Em que circunstâncias? O que é necessário? Etc. E depois levamos um verdadeiro banho de realidade. Se até ali alguém tem alguma visão cor-de-rosa sobre a adoção de uma criança, garanto-vos que fica tudo lá. A realidade é abordada de forma simples e pragmática e, como eu costumo dizer, só falta dizerem “não se meta nisso”. Digo-o, ironicamente, como é óbvio. E digo-o porque, de facto, a adoção é, muitas vezes, romanceada e floreada e convém que tenhamos a real noção de “onde estamos a embarcar”. É um projeto para a vida. Esta formação é obrigatória e o certificado entregue é um dos documentos necessários para dar entrada do processo, caso a decisão seja essa. Há quem decida avançar e há quem tenha ido apenas para ser esclarecido. O processo só pode ser entregue 24 horas depois da formação para garantir um período mínimo de reflexão. Entreguei o processo em Maio de 2016. E volta a soar na minha cabeça: “E agora? O que se segue?” E a mesma resposta: “Agora vai para casa e aguarda”. Boca seca, pernas a tremer, ansiedade “aos gritos”. Espero? Como assim, espero? Não dá para ser já? Calma…. Não conto tudo já, mas todas as semanas vou contar-vos os episódios desta história. A nossa história.

Famílias de todas as cores

  Recentemente, na disciplina de Estudo do Meio, o Duda estudou “A família”. Cá em casa, dizemos sempre que todas as famílias são diferentes. Não há duas famílias iguais. Porque essa é a verdade. Há famílias com pai e mãe, famílias com um pai, com dois pais, com uma ou duas mães. Há famílias reconstruídas com figuras como padrasto e/ou madrasta. Há crianças cuja família é (mesmo que temporariamente) composta por outras crianças e jovens numa casa de acolhimento… E tantas, mas tantas outras. A verdade é que nem sempre é fácil, de forma abstrata e sem exemplos práticos, mostrar esta realidade a uma criança de 7 anos. Os manuais e livros de apoio, nem sempre têm uma abordagem inclusiva destas diferenças. O manual do Duda não tinha, por exemplo, uma família com dois pais. E o Duda não gostou de sentir que não tinha a sua família representada nos exercícios propostos no manual. Em conjunto com a professora, pesquisámos formas de ultrapassar a situação. A professora tem uma sensibilidade extraordinária e é genuinamente preocupada com as crianças da turma e trabalha para que todas se sintam integradas e felizes. Fez uma árvore genealógica adaptada à realidade do Duda, mas ainda assim isso parecia-nos pouco e, principalmente, voltava a não mostrar à turma o mais importante: a diversidade. A minha irmã sugeriu-nos um livro que nos ajudou muito. E não só a nós, como também à professora do Duda que tem, na sua turma, vários tipos de famílias que também não são abordadas nos manuais. Chama-se “Album de Famílias – Todas diferentes e especiais” e é um verdadeiro hino ao amor. De forma muito acessível, mostra a multiplicidade de composições familiares e o quanto isso enriquece a nossa sociedade. Recomendo vivamente a todas as famílias. O livro é da autoria de Susana Amorim e Rute Agulhas e tem ilustração de Inês do Carmo e faz parte do plano nacional de leitura.

Era uma vez…

Era uma vez… “Era uma vez…” Assim começam todas as histórias de encantar. Daquelas que nos oferecem sorrisos e angústias, alegrias e tristezas, mas que no fim tudo acaba bem. A vida não tem guião e não é do fim que quero falar. Quero, sim, partilhar convosco o início desta história que começou há pouco mais de dois anos e que, diariamente, me oferece todas as emoções (e mais algumas). É uma história de amor, de (re)encontro, de um pai e um filho que, acredito eu, nasceram para se encontrar. Para mim, a mais bonita história de amor (perdoem-me a imodéstia). Ao longo do tempo irei partilhar cada pormenor deste caminho mágico dos últimos anos. Porque cada pormenor desta história merece ser contado e partilhado. Ser pai era um sonho antigo. O mais antigo, na verdade. E ser pai desta forma foi, desde sempre uma escolha, absolutamente consciente e clara na minha cabeça. Consciente de que a parentalidade pela via da adoção é diferente da parentalidade pela via biológica nos desafios, na “bagagem” que traz uma criança que nos chega a casa vinda de outra casa (de acolhimento), mas certo de que seria – se assim quiséssemos – igual no amor. Na reta final da fase de pré-adoção, pediram-me para escrever um texto sobre aquilo que era, para mim, a parentalidade pela via da adoção. Não sei escrever senão pelo que me dita o coração e foi isto que senti no momento. Há mais de um ano. Reli-o e não alteraria uma única vírgula. Talvez lhe acrescentasse – assim me permitissem as palavras – maior carga emocional. Filho. Parido. Nascido. Chegado a este colo do pai que por ele esperou…. a vida inteira. Parimos os filhos mesmo quando não nos nascem da carne e não nos rasgam a pele. Porque nos rasgam o peito inflamado por um amor que empurra para fora do peito um coração bêbado de amor que, em chamas, reclama reconhecer o que nunca antes sentiu. Parimo-los a cada vitória, a cada conquista, a cada noite febril que conhece uma aurora no colo que lhe pertence. Mesmo que na pele não nos deixem marcas deixarão, para sempre, em todos e cada recanto do nosso ser. Da nossa alma. Do nosso coração que bate descompassado na busca do compasso do pequeno órgão encostado ao nosso. Roubam-nos todas as certezas de outrora e trazem a mais doce e eterna dúvida sobre nós e o quanto conseguimos (ou não) oferecer-lhe mais lábios rasgados do que lágrimas caídas. Rasgam-nos sim, os filhos. Todos os filhos. Chegados de todos os modos e por todos os lados. A visceralidade da entrega vem da alma, não vem do sangue que por ele entregarei, até à última gota, se preciso for. E, eternamente, deixarei que a alma se rasgue e se renove. Obrigado, meu filho” E aqui começa a viagem desta partilha. Uma história que irei partilhar, em “episódios”, todas as semanas. Em cada um deles contarei um pouco desta aventura. Do sonho à concretização. Espero-vos desse lado.